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Fundos
de pensão e as regras para uma boa governança |
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Paulo
Tolentino |
Publicado
no jornal Valor - 22/11/2005
Em
25 de outubro, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito
(CPMI) dos Correios decidiu quebrar os sigilos bancário, fiscal
e telefônico de 14 fundos de pensão. As entidades de previdência
complementar atingidas pela medida estão entre as maiores do
país e são ligadas ao governo. Ou seja, todas recebem
recursos que, em última análise, têm origem nos
impostos pagos pelos contribuintes. E é justamente por essa razão
(ou desculpa) que parlamentares justificaram a necessidade de uma investigação
mais detalhada, já que lhes parece existir uma suspeita de negócios
lesivos ao patrimônio de tais fundos, relacionando-os com o suposto
desvio de recursos para o financiamento de campanhas políticas.
Antes de tudo, é preciso separar a questão técnica
da questão política - esta sempre sujeita à paixão,
por conta do embate de diferentes matizes ideológicos. Até
prova em contrário, nada há que desabone a honradez e
o trabalho dos administradores das citadas fundações.
Mas é preciso reconhecer que - qualquer que seja a conclusão
da CPMI - a constante presença dos fundos de pensão do
setor público no noticiário político, ao longo
dos anos, em nada tem contribuído para o crescimento da previdência
complementar no país. Ao contrário.
Mudar esse quadro exigirá o aperfeiçoamento da governança
das entidades da área governamental. Para isso, não será
preciso reinventar o nosso sistema de previdência complementar.
O Brasil já tem legislação minuciosa na área
- até em demasia. Ela prevê vários controles atuariais,
financeiros e de gestão, além de multas para as pessoas
físicas dos administradores, que podem chegar, pasmem, a R$ 1
milhão.
Tais controles não existem só no papel. Eles funcionam.
Segundo a Secretaria de Previdência Complementar (SPC), órgão
encarregado de regular e fiscalizar o setor, seis fundos de pensão
estavam sob intervenção ou em regime de administração
especial em abril último. Mais: em setembro, a SPC aplicou, por
razões diversas, multas de R$ 15 mil a R$ 20 mil a 18 pessoas
físicas - dirigentes de cinco entidades de previdência
complementar, dos setores público e privado.
A solução, portanto, não é burocratizar
ainda mais um sistema cuja complexa regulação acaba limitando
o seu próprio crescimento. O que falta são regras claras
e transparentes para o preenchimento dos cargos diretivos das entidades
ligadas à área governamental e mais foco e racionalidade
à normatização e à fiscalização
deste setor - extensão do serviço público descentralizado.
Desburocratizar o ramo levaria setor privado a ver os fundos de pensão
como ferramenta valiosa para suas políticas de RH
De acordo com a SPC, os fundos de pensão contabilizavam, em abril,
R$ 287,3 bilhões em ativos totais. Do total, 62,4% correspondia
às entidades patrocinadas pelo setor público: R$ 179,5
bilhões, o equivalente à receita líquida, em 2004,
das 15 maiores empresas privadas listadas no anuário "Valor
1000". É óbvio que ninguém na iniciativa privada
entregaria a gestão de recursos dessa grandeza a um técnico
sem antes avaliar, minuciosamente, a sua competência, sob pena
de ser crucificado pelos acionistas. Quem garante, contudo, que tal
cartilha é seguida na área estatal? É notório
que os administradores de fundos da iniciativa privada têm mandatos
muito mais extensos - mais compatíveis com os compromissos de
longo prazo dos fundos que dirigem - do que os de entidades ligadas
ao Estado.
Eliminar ou, pelo menos, reduzir o risco de influência político-partidária
nesse processo não exigiria muito esforço. Bastaria tornar
obrigatório o preenchimento dos cargos de direção
dos fundos da esfera pública por profissionais de carreira ligados
aos patrocinadores, e que fossem, também, participantes dos planos
dessas entidades fechadas de previdência. Eles seriam escolhidos,
de comum acordo entre seus pares e os patrocinadores, para cumprir mandatos
nunca coincidentes com os dos Executivos - federal, estadual ou municipal.
Outro avanço seria a redefinição do papel de estruturas
na esfera governamental para fiscalizar e normatizar os fundos de pensão
do setor público e os do setor privado. Essa diferenciação,
diga-se, já existe na legislação, estando os primeiros
subordinados à Lei 108 e os demais à Lei 109. O aporte
de recursos do erário público nas entidades ligadas à
área estatal, por si só, justifica um controle mais rigoroso
de seus planos. Por outro lado, não faz sentido submeter as entidades
de previdência complementar da iniciativa privada a regras tão
rígidas, pois o patrimônio destas nada tem a ver com os
impostos pagos pelos contribuintes.
Um modelo mais produtivo do sistema manteria a SPC encarregada de definir
normas técnicas e de zelar pelo seu cumprimento por todos os
fundos de pensão. No caso das entidades federais, a fiscalização
da governança, mais rígida, caberia a um órgão
mais do que qualificado para tal missão: o Departamento de Coordenação
e Controle das Empresas Estatais (Dest), do Ministério do Planejamento.
Já a governança das entidades ligadas aos Estados e prefeituras
- cujos patrimônios e universo de participantes não são
tão expressivos - seguiria com os Ministérios Públicos,
os Tribunais de Contas ou órgãos especificamente criados
para a governança do serviço público descentralizado,
em cada um deles.
A implantação dessas medidas blindaria os fundos de pensão
da área estatal contra eventuais interesses políticos
e partidários, proporcionaria estabilidade aos mandatos dos administradores
dessas fundações e viabilizaria a simplificação
do cipoal de regras e controles que oneram as fundações
de previdência da iniciativa privada. Desburocratização
é sinônimo de redução de custos. Se o governo
fizer tal opção, não temos dúvidas de que,
a médio prazo, o setor privado passará, de fato, a considerar
os fundos de pensão uma ferramenta valiosa para as suas políticas
de recursos humanos, o que não ocorre hoje. Segundo a SPC, a
população das entidades fechadas do setor privado soma
apenas 3,8 milhões de pessoas no país. Mais: o total de
fundos de pensão, estatais e privados, cresceu só 7,6%
desde 1995, somando hoje 366. O Brasil precisa de mais, de muito mais!
Paulo Tolentino, Presidente da APEP - Associação dos Fundos
de Pensão de Empresas Privadas
Jornal Valor - 22/11/2005
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